Segredos da Anitha

setembro 08, 2009

Fim de um Encontro Inacabado

Com seus olhos negros fixos no nada, ela viaja em pensamentos, brinca de estar tudo bem, canta baixinho uma música que nem é do seu agrado, é daquelas que grudam, mas não dizem nada; sentada em uma das pernas sente o sangue por ela circular mais devagar, sabe que precisa mudar de posição, mas hoje é um daqueles dias em que os ânimos estão escassos, sua auto-estima anda zerada, considera a perna dormente o de menos; o passado não muito distante a atormenta, na verdade ela acabou de ouvir sua voz, tão sensual que a faz suspirar e derreter feito ferro em brasa, porém quando recobra a consciência sabe o quanto de ironia carrega essa mesma voz; escutá-lo a fez voltar àquela noite de clima agradável, ao encontro breve e intenso que tiveram e o primeiro beijo, calmo e desesperado; agora de olhos fechados ela consegue sentir a textura da sua pele branquinha e macia, a faz se sentir como um gato que se esfrega no móvel da sala; suspira; ele poderia tê-la de todas as formas se a quisesse realmente, se não tivesse tanto medo de se arriscar, se não...se não..., enfim, não passou de um encontro daqueles mal acabados, que fica algo para traz; a música grudenta já desgrudou há tempos e de posição mudou inúmeras vezes meio que pra tentar ora senti-lo ora repeli-lo de si; seus olhos, agora abertos, ainda continuam parados; bate com a ponta da caneta na mesa, fazendo ecoar um barulho repetitivo e irritante, movimentos nervosos de quem quer se livrar de algo; escreve o nome dele no papel, escreve várias vezes com inúmeras formas, chega a pensar se seu nome combina com o dele, repensa a atitude adolescente que teve e rabisca o papel todo, quase não há espaço em branco; mesmo seu corpo implorando por alimento através de sons, seu desanimo a impede de saciá-lo, se alimenta do passado, das lembranças de algo não terminado; o som do telefone a atinge de sobressalto, fazendo-a reagir, cambaleante o alcança, coração saindo pela boca, não pensa e deseja que seja mais ninguém além dele, com a voz trêmula atende e do outro lado responde o passado e sua voz arrebatadora; se vê em extrema dificuldade em se controlar, amaldiçoa em pensamento os sentimentos de paixão que teima em sentir, morde o lábio inferior e responde negativamente a ele, afinal não quer se ferir ainda mais; precisa repensar a vida, dar continuidade a ela e deixar de ser um brinquedo engraçadinho, mas sem valor; o fim antecipado da conversa a faz voltar a seu estado estagnado, agora deitada de bruços; exausta pela avalanche de sentimentos e emoções, se entrega ao sono que a carrega pra longe dali; em sonho, corre por entre uma plantação de girassóis sob um céu azul, com ventos a sacudir seus longos cabelos avermelhados, no rosto um sorriso que teima em enfeitá-lo, há uma paz dentro dela que a faz quase flutuar por entre as flores gigantescas e amarelas; e então, nuvens cor de rosa tomam o céu e dele gotas caem, gotas carmim que borram o belo cenário de girassóis e banham seu corpo, enquanto um brilhante raio rabisca o céu e um trovão explode em som, fazendo-a se assustar, seu coração quase para e num estremecimento ela arregala os olhos, a campainha soa insistente; ainda com o coração em descompasso, prende os longos cabelos num coque e responde tentando acalmar a visita que persiste em segurar apertado o tal botão da campainha; sem raciocinar com clareza, ainda sonolenta e ao mesmo tempo agitada devido ao sonho que a pouco tivera, ela abre a porta num só movimento, seu olhar atinge em cheio aquela figura masculina com seus 1,84m de altura; seu passado trajava uma camisa preta de um tecido fino e elegante que contrastava com seu par de tênis descolado; ela sempre se sentiu atraída por esse seu jeito meio homem e meio moleque, mas não poderia se deixar envolver, não mais; e sem pronunciar palavra, ela o viu entrar e disparar sua metralhadora munida de elogios baratos e argumentos melosos e banais, esforçando-se a não ouvi-lo, a não se entregar, ela rebate transformado aquela discussão num remoinho de palavras; por um instante ela se questionou, por que se deixou levar e ficar tão vulnerável, saboreando aquele encontro mesmo sabendo ser uma farsa; inspira, sacode a cabeça como que pra se livrar de um transe; se vê sendo sacudida violentamente, seu braço agora marcado pelos dedos dele; ela se debate e com esforço consegue se desvencilhar daquele contato bruto e desesperado; mirando a pequena gaveta do único móvel da sua saleta, num ato de impulso abre-a e se depara com a única herança deixada pelo pai com o qual nunca tivera muito contato; ela sempre soube que aquilo um dia lhe seria útil; repensando toda sua vida recheada de insignificâncias, se decidiu, agora desejava mais do que nunca silenciá-lo, acabar com suas palavras falsas e sedutoras, com o sofrimento e a indecisão que a assolava; da sua delicada mão, via-se o brilho da herança que refletia nos olhos dele, agora aterrorizados, o tempo nesse instante parecia ter parado, nada se ouvia, o ar parecia pesar toneladas; com uma súplica muda e desesperada, ele tentou impedi-la, mas ela não tinha muito mais a perder ou talvez pensasse não ter e após dois estampidos fez tombar seu passado; o silêncio permaneceu; no chão, o corpo ali estirado com sua típica e agora ainda mais ressaltada palidez, se destacava pelo peito tingido com gotas pegajosas e aos poucos abundantes na cor carmim; com o mesmo impulso, ela virou sua herança para si, respirou fundo como se fosse desistir, apertou-a nas mãos e com um estampido a menos, caiu; dois corpos ao chão, mas não o fez pra se juntar a ele; essa paixão, possivelmente passageira, não foi a verdadeira causa desse desfecho, ela estava muito mais cansada de si mesma do que apaixonada, apenas tinha medo de morrer sozinha; pobre passado, não imaginava o que o futuro lhe reservava, o nada.
posted by Anitha at 9:56:00 AM

2 Comments:

Morreram jovens
cheios de
vazio.

9 de setembro de 2009 00:11  

porra anitha fiquei tão imerso nesses teus capitulos loucos que terminei postando no meu blog o primer capitulo sen editar ainda de um romance troncho q estou escrevendo em paralelo com outro QUE É O QUE TA ME DEIXANDO SEM TEMPO hahahahahah!!!! tua cadencia deixa meus neuronios alcolizados com menos sono... UN BESO!

P.S: TEUS LANCES DE SINDROME DE ESTOCOLMO SÃO SEXYS!!!!

17 de setembro de 2009 12:11  

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